02 OUTUBRO 2022  Domingo

Mozart & Paganini

17h00 Sé Velha de Bragança

 

Mario Hossen Violino
Gérard Caussé Viola

PROGRAMA

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Duo para Violino e Viola, KV. 423
    I. Allegro
    II. Adagio
    III. Rondeau: Allegro

Niccoló Paganini (1782-1840)
Variações “Nel cor più non mi sento”

Alessandro Rolla (1747-1841)
Duo Concertante para Violino e Viola, Opus 15 N.º 3
    I. Allegro
    II. Adagio – Tema di Caraffa (Andantino)
    III. Presto

Georg Friedrich Händel (1685-1759) / Johan Halvorsen (1864-1935)
Passacaglia

NOTAS AO PROGRAMA

Uma estória muito engraçada rodeia os Duos, KV423 e 424, de Mozart: pouco após a sua chegada a Salzburgo, Mozart foi abordado pelo amigo Michael Haydn, irmão de Joseph e organista da catedral, no sentido de lhe providenciar 2 duos (que faria passar por seus), que suprissem a sua falta de inspiração, após os 4 que já havia composto por encomenda do arcebispo Colloredo (príncipe reinante de Salzburgo), antigo – e detestado – patrão de Mozart. Colloredo era um bom violinista amador e gostava até de se juntar aos músicos da sua Capela na execução de sinfonias. Ora Mozart escreveu as obras como se um violinista profissional as fosse executar, com variada ornamentação, detalhes de articulação, cordas duplas, mudanças de posição rápidas, exploração da 4.ª corda, etc., pelo que podemos adivinhar um Colloredo a “suar” muito para conseguir pôr estes Duos ‘em dedos’! Uma pequena ‘desforra’ de Mozart pelas desconsiderações de Colloredo para com ele, alguns anos antes? Michael Haydn, esse, ficou-lhe eternamente reconhecido e não deixou, mais tarde, de reafirmar a autoria de Mozart de ambas as obras, tendo devolvido os autógrafos.
Algo que tendemos a esquecer é que Mozart, além de genial instrumentista de tecla, era também um excelente violinista e praticou habitualmente um e outro instrumentos até se mudar para Viena (1781).
Com isto em mente, ouçamos este Duo (no fundo, uma Sonata) e admiremos a naturalidade com que Mozart dispõe violino e viola como se fossem dois enamorados conversando, ora mais calma, ora mais sanguineamente, mas sempre cúmplices, durante quase 20 minutos. Uma pérola de música intimista!
Alessandro Rolla (1757-1841) foi diretor da Orquestra do Teatro Scala de Milão desde 1802 e, desde 1808, professor do então inaugurado Conservatório, aí se mantendo até 1835. Foi também um dos grandes paladinos das virtudes e possibilidades da viola, contribuindo para a fazer sair da sombra do violino.
Os 3 Duetos Concertantes, op. 15 foram dedicados aos duques Visconti di Modrone (antepassados do famoso realizador de cinema) e conjugam uma linguagem da sua época e local (influências da ópera, culto do virtuosismo instrumental) com a herança e a moderação do Classicismo. No Dueto que ouviremos, avulta o ‘Andantino’ (Tema e variações), subintitulado ‘Tema di Caraffa’, pois tem por tema a ária ‘Oh, cara memoria’ (acto 1, cena 4) da ópera, hoje esquecida, ‘Adele di Lusignano’, de Michele Carafa. O próprio Rolla dirigira a estreia da ópera, no Scala, no Outono de 1817 e atestam do apreço de que esse trecho gozava entre o público o facto de o ter utilizado noutras duas obras suas, para violino e orquestra.
Denominada ‘Capriccio’ é a obra de Paganini, composta de Introdução e Variações sobre o mesmo dueto da ópera ‘La molinara’ (1788), de Paisiello, de que Beethoven já se servira em 1795 para as suas Variações para tecla, WoO 70. A obra data de 1827 e terá sido escrita em antecipação dos seus numerosos concertos em Viena no ano seguinte.
Por fim, do norueguês Johan Halvorsen é a transcrição para violino e viola da ‘Passacaille’, andamento conclusivo da ‘Suite para tecla n.º 7, em sol m, HWV432’, de Händel (ed. Londres, 1720). Um trabalho feliz, se repararmos na forma fluida como os dois instrumentos vão trocando papéis e carácteres, tipos de articulação e figurações, ‘tempi’ e registos.